Tristeza e caos na cidade em que vivo

No dia 28 de outubro de 2025, dia em que completei 60 anos, ocorreu uma das operações policiais mais letais na história da cidade do Rio de Janeiro. Foram 121 pessoas mortas na chamada Megaoperação pelas autoridades, com o objetivo de cumprir cerca de 90 mandados de prisão nas comunidades do Alemão e da Penha. Apesar de amanhecer feliz por estar completando mais uma primavera, foi um dia triste. Dias em que corpos sem vida foram espalhados na rua a céu aberto. Em sã consciência, quem conseguiria comemorar algo diante de quadro tão aterrador? Sendo assim, levando em consideração as cores que tenho por dentro, considerei essa megaoperação um desastre para a cidade em que vivo.

Não consigo me convencer que a polícia deva agir como juiz, decidindo quem vive, quem morre, em quais casas ela pode entrar chutando a porta sem mandado e quais não… Como agentes do estado, creio que não lhes cabe essa função. Entendo que em caso de confronto, a ação acontece. O problema que no Rio os autos de resistência são recorrentes e comuns, principalmente nas comunidades.

Então, é difícil apoiar essas ações que deixam mais de 100 mortos largados por aí.
E quando os moradores os recolhem, algumas autoridades ainda reclamam.

No meu entender, um agente do estado não pode agir com tanto desprezo pela vida humana.
Não dá pra mim.

Sou moradora do asfalto, mas não desconheço a vida por lá, apesar de não viver a rotina diária de medo, como os moradores da favela vivem.

Por exemplo, fiz muitas contações de história em escolas de comunidade e CIEPs, a época do lançamento do meu livro infantil. Em algumas, eu só entrava acompanhada por uma professora. Em uma delas, inclusive, um “vigia” da área ficou observando meu trabalho com as crianças pela grade da escola até o momento em que parti, novamente acompanhada pela professora.

Até hoje esse “território” não foi “retomado” pelo estado.

Essas professoras vivem em estado de alerta e, mesmo assim, sempre tentam levar um pouco do lúdico para as crianças. E eu, modestamente, no que posso ou sei fazer, tento ajudar.

Ninguém aguenta viver sob tensão o tempo todo.
Eu gosto muito de crianças, gosto de estar com elas, sentar no meio delas e acho inconcebível oferecer a elas um mundo cheio de privações, não só materiais, mas de carinho, benevolência, afeto.

Bem, outro dia no Xwitter (nome que batizei o antigo Twitter e atual X), fui chamada de todos os tipos de adjetivos ao comentar um post de um jornalista sobre a referida operação policial. Nesse mundo atual, faz parte do cotidiano. Principalmente, se somos mulheres e ainda por cima mais velhas. Aí, então, tudo vira ofensa e essas agressões estão, de certa forma, normalizadas, pois geram engajamento para os donos das postagens e para quem as profere. Não deveria ser assim, mas tem sido.

Sinceramente, não entendo que mundo essas pessoas querem.
Apoiam a violência para acabar com a violência.

Eu não entendi o abandono dos corpos pelos agentes do estado.

A informação oficial é de que as forças de segurança do estado do Rio de Janeiro foram cumprir mandados de prisão, objetivo esse que não foi alcançado. Em algumas entrevistas, falou-se muito sobre a necessidade de se retormar o território ocupado pela facção Comando Vermelho. Eu pergunto: então, algum território foi retomado? Creio que não. O cidadão carioca se sentiu mais seguro, com o seu direito de ir e vir assegurado, depois de tantos tiros disparados e tantas mortes espalhadas pelo chão? Novamente, respondo: creio que não. No tabuleiro do crime, essas baixas logo serão substituídas e ocupadas por outros membros, porque o Estado permanecerá ausente nesses locais. Ausente em todos os sentidos, não só na questão de segurança, mas também ausente dos serviços sob sua responsabilidade, como saneamento, moradia digna, saúde, educação…

A política de segurança pública não pode fincar seu alicerce somente em uma política de confronto. Isso acontece há tempos e o êxito está longe de ser alcançado.

Um comentário em “Tristeza e caos na cidade em que vivo

  • sábado, 8 de novembro de 2025 em 20:40
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    Triste cidade. Governada por seres medíocres, guiados pelo egoísmo e pela sede de poder.

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