“O Agente Secreto”: sucesso de crítica e público.
Em cartaz há menos de seis meses, o filme de Kléber Mendonça Filho, que assina a direção e o roteiro, já coleciona vitórias pelo mundo. Entre as categorias mais premiadas do longa estão as de melhor filme, melhor direção, melhor roteiro e melhor ator para Wagner Moura.
O Brasil ainda está com o peito estufado de orgulho com o primeiro Oscar do cinema nacional para “Ainda estou aqui”, no ano passado. E diante das inúmeras premiações e indicações, o país espera repetir a dose. Independente de receber o Oscar ou não, “O Agente Secreto” já é um sucesso de crítica e bilheteria. Já não permite mais que o Brasil murche o peito. Não mesmo.
A história se passa no período mais duro da ditadura militar, nos anos 1970. Mas não é uma história sobre os desmandos e violações dos direitos civis durante a ditadura exatamente. É mais que isso. O clima de medo e desconfiança, tão característicos daquela época, estão presentes, mas ao centrar a história na capital pernambucana, o filme traz à tona o preconceito contra os nordestinos, o descaso e, por que não dizer, o desprezo de certos poderosos do “sul” pelo nordeste brasileiro. Como se a região vivesse para servir as necessidades da turma do sul e sudeste. A nitidez dessa impressão fica clara nas falas do algoz de Marcelo, personagem de Wagner Moura.
A longa duração do filme, duas horas e quarenta minutos, nos remete ao cinema autoral, com aquela narrativa mais lenta, contemplativa, mas que aumenta a sensação de que algo terrível venha a acontecer. São suspiros abafados, olhares que falam sem dizer e movimentos curtos, como se o menor deslize pudesse desencadear uma reação brutal, violenta. Essa sensação de insegurança e ignorância da real situação de Marcelo consome uns bons minutos do filme e isso vai contribuindo para aumentar a angústia.
Enquanto vai descortinando para o telespectador a situação em que Marcelo se encontra, Mendonça vai mostrando um Brasil onde impera a lei do mais forte, da “autoridade”. O filme mostra também, de forma contundente e árida, um desprezo pela vida do outro, seja por parte de um poderoso, que manda matar um cidadão simplesmente porque ele o desagradou, como de um humilde, que vive de ganhar migalhas para sobreviver, não importando se matar alguém possa ser uma fonte de renda em um país desigual, pobre e que não cuida dos seus cidadãos de maneira justa e equânime.
Mas é um filme que traz também a beleza da solidariedade tão presente em situações limite. O acolhimento, a ajuda sem pedir nada em troca, a fraternidade, tudo isso também está presente neste misto de thriller e drama familiar. A personagem de Tânia Maria adiciona um humor requintado, anestesiante, singelo ao descrever as mazelas dos seus “abrigados”. São minutos em que o espectador se deixa levar pela boa vontade e torce para que tudo termine bem para todos, mesmo que o peito permaneça oprimido.
O título do filme “O Agente Secreto” nos remete aos filmes de ação e suspense, de heróis invencíveis. Mas Marcelo é apenas um agente da sua própria história, que permeia uma época tão cheia de segredos, desconfianças e suspeitas, fazendo com que ele tenha que levar uma vida secreta, sorrateira, escondida. Agora, contudo, Kléber Mendonça Filho, trouxe “O Agente Secreto” para os holofotes e, pelo visto, é diante deles que o filme vai fincar raízes.

Mas 02:40:00 é muito. Podia ser um pouquinho menor.